Eu também, leitores, eu também senti falta de novas postagens! Mas aqui estamos!
Uma propaganda recente que gerou muita repercussão foi a da cerveja Devassa, tendo como protagonista a cantora Sandy. Deixando polêmicas e opiniões à parte, sempre gostei muito de ouvir a cantora se expressar. Parei para assistir à entrevista na qual ela explica, argumenta e defende seu novo trabalho publicitário. Mais uma vez, Sandy usou boa organização de raciocínios, mesmo diante da polêmica que o comercial já estava causando. Mas vamos ao ponto que me levou à criação desta postagem. No final da entrevista, Sandy diz:
"A maneira como eu ajo na hora de ser sensual com o meu marido, isso é entre mim e ele."
Notem o uso da palavra "mim", que "dá o que falar" tanto quanto o comercial. Esta matéria abordará justamente o uso dessa palavrinha, que pode também causar estranheza numa construção oral ou escrita.
Assistam à entrevista completa:
Sandy acertou ou errou? Vamos às regras?
EU ou MIM?
Não podemos esquecer que “eu” é que pode ser sujeito, pois "mim" não anda, "mim" não come, "mim" não estuda.
Portanto, sempre que houver um verbo depois, use o "eu".
"Esse livro é pra eu ler."(Não para mim ler)
Só use o "mim" quando ele não for o agente (sujeito) da oração, como:
"O livro é para mim."
"Para mim, esse livro é o melhor de todos."
Porém, para algumas regras há exceções:
O mim deve SEMPRE ser usado com "ENTRE", como no exemplo:
"Entre mim e ele não há mentiras."
Sim, queridos leitores, mais uma vez a Sandy acertou! Só para constar, Sandy é formada em Letras, o que não a torna “perfeita” na arte de escrever ou se expressar bem, mas, convenhamos, é uma graduação que exige que se tenha boa oralidade e escrita.
EU e MIM: Esta sim é uma polêmica que pode acrescentar algo em nossas vidas, pelo menos no que se refere a melhorar o nosso vocabulário!
É comum que haja dúvidas na hora de classificar morfologicamente algumas palavras dentro de uma construção, mesmo que essas pertençam a classes gramaticais totalmente diferentes. Isso se dá, principalmente quando se trata de palavras homônimas/homófonas/homográficas, ou seja, são pronunciadas e escritas da mesma forma, mas possuem mais de um significado.
Mas ideia da matéria de hoje surgiu enquanto eu ouvia e cantarolava a música "Grande Hotel", do Kid Abelha. Na letra, a palavra “só” aparece exercendo duas funções: de advérbio e de adjetivo.
Confira a letra assistindo ao vídeo:
Note o trecho:
Qual o segredo da felicidade?
Será preciso ficar só pra se viver?
Qual o sentido da realidade?
Será preciso ficar só pra se viver?
Só pra se viver.
Ficar só
Só pra se viver...
Ficar só
Só pra se viver.
Para classificar certas palavras como advérbios ou adjetivos numa construção, precisamos entender os conceitos dessas duas classes:
Advérbio: É invariável. Modifica um verbo, um adjetivo, outro advérbio ou uma frase inteira.
Adjetivo: O adjetivo varia de gênero, número e grau, especificando o substantivo e caracterizando-o.
Na primeira utilização, a palavra “só” exerce a função de adjetivo. Está caracterizando, qualificando o sujeito, que nesse o caso, é indefinido.
Será preciso ficar só (sozinho) pra se viver?
Na segunda utilização, a mesma palavra exerce função de advérbio, que é invariável, indicando circunstância.
Só (apenas, somente) pra se viver...
Identificamos outras palavras que também exercem diferentes funções, mas que possuem também detalhes diferentes em suas grafias ou em suas pronúncias, como por exemplo:
Longes/longe
Em terras longes, encontrou-se muito ouro. (advérbio de lugar)
Eles foram longe em suas pesquisas acadêmicas. (adjetivo)
Meio/meia
Fiquei meio traumatizada com os resultados das pesquisas. (advérbio de intensidade)
Preferi comer apenas meia fatia do bolo. (adjetivo)
Observação: A palavra “meia” pode exercer também a função de substantivo. Ex: Encontrei apenas uma meia na gaveta.
Bastante/bastantes
Para obter conhecimento é necessário ler bastantes livros. (adjetivo)
Em sua sala de aula estudam alunos bastante inteligentes! (advérbio)
É isso, pessoal!
Palavras idênticas ou parecidas, com classes gramaticais e significados diferentes. Estão, portanto, num conflito desigual, basta um pouco de atenção para classificá-las morfologicamente!
Como vimos nesta na série, a PONTUAÇÃO serve para, na escrita, dar um “colorido” nas frases e orações, possibilitando ao leitor melhor assimilação das emoções contidas no texto e intenções do autor (ou, dependendo da narrativa, do “eu lírico”).
Talvez você já tenha visto o Ponto de Interrogação e o de Exclamação juntos em alguma construção. Na ocasião, pode ter se questionado: “Como eu poderia interpretar isso, ou entonar a fala numa leitura em voz alta?”
Para responder essa questão, vamos às definições dessas pontuações:
Ponto de Interrogação:
Emprega-se nas frases interrogativas DIRETAS:
— O que estudaremos hoje? Língua Portuguesa?
Obs: Em interrogativas INDIRETAS, o acento não pode ser usado:
—Gostaria que me respondesse o que estudaremos hoje.
Ponto de Exclamação:
É usado em uma interjeição ou frase exclamativa para expressar chamamento, emoções, ordem ou pedido:
—Lucas! Ande logo! O seu ônibus já vai passar!
Mas o que dizer sobre a junção das duas pontuações? Vamos imaginar uma situação:
Você encontra um mendigo na rua e pergunta:
—Você está com fome? (provavelmente a resposta será positiva)
Em outra situação, você e seus amigos acabam de sair de uma churrascaria, quando de repente um deles diz que vai precisa chegar logo em casa para comer algo. Daí você pergunta:
—Você está com fome?!
Leitores, embora eu tenha absoluta certeza de que compreenderam o porquê de se usar os dois sinais de pontuação juntos, vamos à conclusão:
A pergunta, nesse caso, vem carregada de emoção.
É isso, pessoal. Detalhes de pontuação, nesses casos, são emocionantes! É por essas e outras que a nossa Língua Portuguesa é tão apaixonante! Não acham?
A segunda matéria da série Pontuação abrange, em pormenores, o uso de ponto e vírgula (;), dois pontos (:), reticências (...), ponto final (.), aspas (“”), parênteses ( ), e travessão (—).
PONTO-E-VÍRGULA ;
Emprega-se o ponto e vírgula, que indica uma pausa mais longa que a vírgula:
Para separar, em um período de certa extensão, as partes que tenham orações já separadas por vírgulas:
Já tive muitas capas e infinitos guarda-chuvas, mas acabei me cansando de tê-los e perdê-los; há anos vivo sem nenhum desses abrigos, e também, como toda gente, sem chapéu.
Braga, Rubem. Ai de ti, Copacabana.
Rio de Janeiro: Record, 1996
Para separar os itens em uma enumeração:
A prova constará de: a) um estudo de texto; b) cinco questões gramaticais; c) uma redação sobre o tema abordado no texto.
DOIS-PONTOS :
Empregam-se dois-pontos:
Para introduzir uma fala:
A aeromoça aproximou-se:
- Os passageiros devem permanecer sentados até o pouso da aeronave.
Para introduzir uma citação:
Pois eu escutei no noticiário: a lei proíbe o uso de cigarros em locais públicos.
Para introduzir uma enumeração:
Procurei o motivo do apelido curioso, nada vi semelhante ao objeto da comparação: um homem atento, grave, de rosto inexpressivo.
RAMOS, Graciliano. Infância. Rio de Janeiro: Record, 1993.
Para introduzir uma explicação, resumo ou conseqüência do que se disse antes:
Tanto tempo se passou e não passávamos disto: eternos aprendizes.
RETICÊNCIAS ...
Empregam-se as reticências:
1) Para indicar suspensão de pensamento:
Essa incapacidade de atingir, de entender, é que com que eu, por instinto de...
LISPECTOR, Clarice. Os melhores contos. São Paulo: Global, 1984.
2) Para indicar dúvida, surpresa ou hesitação:
- E as obras de Tomes? A igreja...já haverá igreja nova?
EÇA DE QUEIRÓS. A cidade e as serras.
Rio de Janeiro: Ediouro, 1998.
Para indicar ironia:
Júnior irá mesmo até Paris? Até parece...
PONTO FINAL .
O ponto final indica a pausa máxima. É empregado no final de um período simples (oração absoluta) ou de um período composto:
Corria o mês de março de 1603. Era portanto um ano antes do dia em que se abriu esta história.
ALENCAR, José de. Obras completas.
Rio de Janeiro: Aguilar, 1985.
ASPAS “ ”
Empregam-se as aspas:
Para indicar o início e o fim de uma citação:
Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”.
ALVES, Rubem. Sobre a morte e o morrer.
Folha de São Paulo, 12 out. 2003.
Para destacar uma palavra (ou expressão):
O verbo “ficar” vem adquirindo novos significados.
Para dar outra conotação a determinada palavra (ou expressão):
Os “anjinhos” já estão prontos? O ônibus escolar já chegou.
Para marcar o diálogo, em substituição ao travessão:
“Aquela moça da rua Larga?”, perguntou Marialva.
“Aquela.”
FONSECA, Rubem. Pequenas criaturas.
São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
PARÊNTESES ( )
Empregam-se os parênteses:
Para intercalar uma ideia ou uma oração acessória num texto:
Macabéa começou (explosão) tremelicar toda por causa do lado penoso que há na excessiva felicidade.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela.
Rio de Janeiro, Rocco, 1998.
Nas referências bibliográficas:
Mas quando olhar a mancha viva na minha camisa, talvez faça uma careta e me deixe passar. (Chico Buarque de Hollanda)
Nas indicações ciências (rubricas) das peças de teatro. Nas rubricas, marcam-se os movimentos, gestos e expressões que o ator deve fazer:
TOMÁS — É meu, tenho dito.
SAMPAIO — Pois não é, não senhor... (Agarram-se ambos no leitão e puxam cada um para seu lado.)
Martins Pena. O tempo de Martins Pena.
Rio de Janeiro: Ediouro, 1998.
TRAVESSÃO: —
Emprega-se travessão:
Para indicar a fala (começo ou fim) e a mudança de interlocutor, nos diálogos:
—Você não precisa de pílulas?
—Que pílulas?
—Essas para acalmar.
—Eu sou calma — disse Luciana com um meio sorriso.
FAGUNDES TELLES, Ligia. Ciranda de Pedra
Rio d Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
Para enfatizar expressões ou frases:
Foi o poeta — sonhou — e amou na vida.
Álvares de Azevedo. Poesias completas.
Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.
Impossível escrever um poema — uma linha que seja— de verdadeira poesia.
Drummond de Andrade, Carlos. Poesia completa e prosa.
Rio de Janeiro: Aguilar, 1973.
É isso, pessoal!
Nossa próxima e última matéria da série Pontuação abordará apenas a aplicação do PONTO DE INTERROGAÇÃO e PONTO DE EXCLAMAÇÃO, que, para muitos, ainda causa muita confusão.
Sem crises...
Fonte: Gramática em texto. Leila Lauar Saramento – Ed. Moderna.
Quero renovar os votos de feliz Ano Novo a todos vocês que, como eu, são apaixonados pelos mistérios da Língua Portuguesa.
Nossa primeira matéria do ano dará início de uma série de postagens referentes ao uso adequado da pontuação. Em situação de fala, naturalmente, os falantes entonam a voz à medida que expressam emoções. Porém, na escrita, a aplicação da pontuação ou a falta dela, pode comprometer a mensagem que se deseja transmitir.
Sabemos que, quem escreve (na Linguística, chamado de emissor), escreve para alguém. Portanto, o principal interesse é que o leitor (na Linguística, chamado de receptor) entenda a mensagem (na Linguística, chamada de código, nesse caso, a Língua Portuguesa). Com o uso bem aplicado da pontuação, a escrita se aproximará mais da fala, permitindo uma assimilação mais clara e correta.
Leia no texto a seguir um bom exemplo disso:
Pontuação: Um detalhe pode mudar todo o sentido.
Um homem rico estava muito doente, pediu papel e caneta, e assim escreveu:
“Deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres”.
Morreu antes de fazer a pontuação. Para quem ele deixava a fortuna?
Eram quatro concorrentes. O sobrinho fez a seguinte pontuação:
“Deixo meus bens à minha irmã? Não, a meu sobrinho.
Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres”
A irmã chegou em seguida e pontuou assim, o escrito:
“Deixo meus bens à minha irmã, não a meu sobrinho.
Jamais será paga a conta do alfaiate. Nada aos pobres.”
O alfaiate pediu cópia do original e puxou a brasa pra sardinha dele:
“Deixo meus bens à minha irmã? Não! Ao meu sobrinho jamais! Será paga a conta do alfaiate.
Nada aos pobres.”
Aí, chegaram os descamisados da cidade. Um deles, sabido, fez esta interpretação:
“Deixo meus bens à minha irmã? Não! A meu sobrinho jamais! Será paga a conta do alfaiate? Nada! Aos pobres.”
Então vamos por partes, começando por sua definição:
PONTUAÇÃO: É utilizada na escrita para indicar várias possibilidades de entonação de fala, além de ajudar a expressão de pensamentos, sentidos e emoções.
Sinais de pontuação:
Vírgula
Ponto-e-vírgula
Dois-pontos
Reticências
Ponto de interrogação
Ponto de exclamação
Ponto Final
Aspas
Parênteses
Travessão
Vamos começar com aVÍRGULA. Temos no blog outra postagemrelacionada, mas nesta matéria teremos todos os seus pormenores na gramática.
Assista ao vídeo:
Para o entendimento sobre o uso da vírgula, precisamos saber que seu emprego exige obedecer às normas dos períodos, que são classificados como SIMPLES e COMPOSTO.
Período Simples:
Emprega-se vírgula no período simples:
1)Para separar, numa enumeração, os termos com a mesma função sintática.
Atenção: Não use a vírgula se, antes do último termo da enumeração houver conjunção aditiva “e”.
Gosto da culináriajaponesa, italiana e brasileira.
2) Para separar o aposto:
José Saramago, escritor português,foi homenageado também no Brasil.
3) Para separar o vocativo:
Boa tarde, Sr. Paulo...
4) Para separar os adjuntos adverbiais antepostos:
Durante o Réveillon, em Copacabana, não choveu.
5) Para separar nomes de lugar, em datas e em endereços:
Santo André, 14 de janeiro de 2011.
Avenida dos Estados, 1000.
6) Para separar palavras ou expressões explicativas:
O aluno titubeou, isto é, não entendeu de pronto a matéria.
7) Para indicar a supressão de um verbo (zeugma):
Eu prefiro suco, e ele, refrigerante. (prefere)
Não se emprega vírgula no período simples nos casos:
1) Entre o sujeito e o predicado:
As chuvas de verãocausaram alagamentos em todo o Brasil.
Sujeito Predicado
2) Entre os verbos e seus complementos:
Os ativistaspreocupam-secom o desmatamento.
Verbo Complemento
3) Entre o nome e seus adjuntos adnominais e complementos nominais.
A saudadedos amigosdeixava-o melancólico.
Nome adj. adnominal
4) Entre dois termos ligados pornem, ououe:
Não esperou a mimnema você.
Escolha cervejaouvinho.
Período composto:
-Emprega-se vírgula no período composto nos casos:
1) Para separar orações coordenadas não ligadas pela conjunção aditivae:
Viajou durante as férias, foi visitar os parentes.
2) Para separar orações, coordenadas pela conjunção aditivae,que apresentam sujeitos diferentes:
Fiz o pedido, e comemos juntos.
3) Para separar orações subordinadas adjetivas explicativas:
Seus comentários,que são brilhantes, interessam a todos.
4) Para separar orações subordinadas adverbiais, sobretudo quando antepostas à principal (e, de modo geral, separar as orações subordinadas quando estão deslocadas ou intercaladas):
Embora vivesse no interior, conhecia a agitação dos centros urbanos.
Subordinada adverbial concessiva
5) Para separar orações intercaladas ou interferentes:
As ofensas,disse ela, foram graves!
Não se emprega vírgula no período composto nos casos:
1) Entre a oração principal e a oração subordinada substantiva:
A família decidiu que voltaria para São Paulo.
2) Para separar a oração subordinada adjetiva restritiva intercalada na oração principal:
O estágioque fiz nessa empresafoi proveitoso.
3) Entre duas coordenadas ligadas pela conjunção aditivaecom o mesmo sujeito:
A reunião foi longeeterminou após o expediente.
Por enquanto é isso, pessoal! O uso da vírgula foi explicado com todos os pormenores gramáticos!
Nossa próxima matéria falará sobre o uso correto doponto-e-vírgula.
Sem crises...
Fonte: Gramática em texto. Leila Lauar Saramento – Ed. Moderna.